O mercado de games play-to-earn com criptomoedas vive uma febre, com número crescente de jogadores ganhando dinheiro jogando: saiba o que esperar para o futuro.

*por Thiago Moreira e Christian Gazzetta

Como qualquer mercado recente, o de games em blockchain play-to-earn (P2E) com criptomoedas ainda convive com alguns gargalos que terá que superar para que seu potencial seja totalmente explorado. A boa notícia é que, justamente por isso, há muitas oportunidades esperando para serem exploradas.

1. Diversão

O primeiro fator a saltar aos olhos é a diversão: estamos falando de uma indústria na qual construir bons jogos que cativem o jogador sempre foi a regra. Por praticamente meio século, o mercado de jogos esteve voltado para a venda de uma boa experiência ao jogador. Este sempre pagou para jogar, apenas com a expectativa de se divertir.

Recentemente, porém, o mercado essa história vem mudando radicalmente: para muitos, jogar vem se tornando uma importante fonte de renda em vez de mero entretenimento. Esse é o cenário que nos conduziu à atual inundação no mercado de games, no qual produtos de qualidade questionável oferecem experiências tediosas, mas que são jogados graças à expectativa de obter ganhos.

Proporcionar bom entretenimento ao jogador é a  forma mais óbvia de agregar valor a um game para além da mera expectativa de lucros. O líder do mercado, Axie Infinity, conquistou essa posição justamente ao inserir estratégias mais complexas no modo player-vs-player (PVP), garantindo maior apelo ao jogador. Mas o caminho ainda é longo. Prova disso é a resposta à pergunta: alguém jogaria Axie Infinity de graça? Ou melhor: alguém pagaria para jogar Axie Infinity?

Trazer diversão pode unir o mercado emergente ao tradicional: jogadores casuais podem entrar no jogo na forma de clientes, enquanto em outra camada, outros fazem o trabalho de fornecer o necessário para que joguem, permitindo que um ecossistema autossustentável se consolide.

2. Concentração

No momento em que este artigo é escrito, os 7 maiores tokens em capitalização do mercado play-to-earn pertencem à rede Ethereum. Isso implica em uma barreira considerável dada pelas taxas dessa rede, atualmente com uma média acima dos 20 dólares. 

Ainda que alguns games construam sidechains para contornar o problema, como a famosa Ronin do Axie Infinity, ao menos as transações de entrada e saída precisam passar pela mainnet. Por isso, jogadores com ganhos mais modestos perdem em flexibilidade para adicionarem ou retirarem capital do jogo, mas por outro lado o jogo se torna mais eficiente ao reter a riqueza que lá é gerada.

A Binance Smart Chain vêm se mostrando a maior concorrente da rede Ethereum ao apostar nesse aspecto, contando com um ecossistema já bem vasto e com taxas de transação bem mais baixas. A ligação direta com a maior corretora do mundo também torna essa rede uma importante porta de entrada de capital no mundo crypto.

Em outras redes, o ecossistema play-to-earn segue incipiente. Por isso, há potencial de sobra, e projetos ambiciosos já vêm buscando preencher esses espaços. A rede Solana, que após sucessivos ralis já é a sétima maior moeda em market cap, ainda segue com um ecossistema enxuto. 

É lá que Star Atlas aposta na criação do mais complexo metaverso já visto. Seus tokens, ATLAS e POLIS assistiram uma valorização massiva ao serem negociados  no mercado após um IDO extremamente concorrido. Um fundo multimilionário já foi reservado pelo time da Solana para impulsionar o florescimento de mais projetos como esse.

Outras redes seguem correndo por fora. Em geral, ainda faltam nelas soluções amigáveis que permitam uma NFTização simples dos elementos do jogo, como Enjin e Sandbox (Ethereum) e Mobox (BSC). Polygon está um pouco mais à frente nesse aspecto, sendo compatível com soluções como Venly e Stardust. A rede se beneficia também de baixas taxas que a tornam mais atrativa para projetos do Ethereum como Decentraland e Sandbox.

Enquanto o Cardano espera obter impulso após a atualização para o Alonzo. Por isso, as equipes que busam explorar esse filão precisam ter capacitação interna para realizar o desenvolvimento tanto do jogo quanto da tecnologia cripto, além de uma tokenomics consistente, e conseguir colocar todos esses profissionais extremamente heterogêneos para falarem uma mesma língua. Pior que isso: estamos falando ainda de profissionais bem escassos, principalmente os que já tenham alguma experiência mais sólida no setor.

3. O problema dos incentivos

A história já está batida. Um novo game surge prometendo ser o novo Axie Infinity, surge um hype em torno, o preço do token dispara antes mesmo do lançamento, e no fim o projeto se mostra um fiasco. A pergunta que todos que buscam entender o setor fazem é: o que o Axie tem que falta aos outros jogos? Por que esses games, às vezes muito bem desenvolvidos, não conseguem destroná-lo?

A resposta a essa questão não é tão simples. Sim, o Axie tem uma tokenomics mais consistente que a grande maioria dos concorrentes, e conta com uma jogabilidade que abre espaço para estratégias interessantes, ao menos no modo multiplayer. Mas dois fatores parecem ser os mais cruciais:

1 – O Axie Infinity é rentável. Hoje o play-to-earn é uma realidade posta. É inútil tentar colocar o novo Axie no mercado e proporcionar ao jogador ganhos que não conseguem bater de frente com o Axie. E não adianta oferecer ao jogador um token desvalorizado apenas com uma promessa de valorização, pois esta depende justamente da entrada de novos jogadores, nos levando a um problema de ovo e galinha. 

O jogo precisa entrar no mercado já competitivo e rentável para conseguir atrair novos jogadores e assim fazer explodir o preço do token. Não é uma regra oferecer ganhos similares aos do Axie, mas qualquer coisa abaixo precisa ser compensada com expectativas muito sólidas. Outra possibilidade é oferecer ganhos mais modestos, mas acompanhados de um custo de entrada também mais modesto.

2 – O Axie é um first mover. Ok, não foi o primeiro jogo crypto, mas elevou o play-to-earn a um novo patamar ao unir as figuras do jogador e do minerador em uma só. Hoje qualquer jogo que entre no mercado precisa bater de frente com o Axie. Mas quando o Axie surgiu esse mercado com que projeto ele competia? O mercado era praticamente uma página em branco. Hoje qualquer projeto que entre no mercado é inevitavelmente comparado ao Axie Infinity, mesmo que apresente uma proposta completamente diferente

Perspectivas

Hoje o mercado play-to-earn ainda assiste ainda uma grande concentração em MMOs e RPGs. Essa é uma tendência lógica para inaugurar o mercado pela própria natureza desses gêneros: o estilo de progressão, o multiplayer, o grau de personalização possível e de comercialização de itens e habilidades, o engajamento requerido. Não por acaso, antes do casamento entre games e crypto, eram nesses gêneros que jogadores talentosos já podiam obter renda em jogos como League of Legends.

Outro gênero pioneiro é o de games casuais que que bebem da fonte de Minecraft e The Sims, oferecendo um mundo calmo e relaxante no qual ativos, especialmente a terra, são comercializados. É o caso de Decentraland, Sandbox e do muito aguardado My Neighbour Alice. 

Em geral, a grande maioria dos novos jogos tenta competir nesses espaços já muito concorridos. O que esperamos e desejamos é uma diversificação bem maior de gêneros em um futuro próximo: games de esportes, de guerra, de terror, ligados a franquias renomadas… Esses ainda contam com pouquíssimos produtos.

Mas a maior expectativa dentro do setor, sem dúvida, é a consolidação de metaversos. Já não são raros os games que alegam possuir ou estar construindo um, mas a verdade é que esse movimento ainda é embrionário. Em alguns meses, devemos assistir o lançamento de Star Atlas, que tenta liderar a transição. O próprio Axie também promete alcançar o novo patamar com o lançamento de seu metaverso, Lunacia, em 2022.

O desafio é construir games com boas tokenomics, que gerem economias circulares capazes de se sustentar mesmo sem a entrada constante de novos usuários. Muitos relutam em entrar no Axie hoje, justamente porque o game requer um investimento alto, e ninguém está perfeitamente certo de que não é uma bolha prestes a estourar. 

O público em geral ainda não se acostumou à ideia de ganhar dinheiro jogando. Para quem não está familiarizado, soa como algo bizarro. Soa extremamente arriscado investir centenas de dólares em um punhado de bytes que prometem dar retornos incompatíveis com qualquer investimento que conheçam no mundo “real”. Parece simplesmente bom demais para ser verdade.

Concluindo, o mercado ainda sofre com a falta de mais opções, e mais cativantes, com menores barreiras, tanto de investimento inicial como de taxas. Se isso for alcançado, o que parece inevitável a essa altura, poderemos daqui a dez anos viver, quem sabe, em um mundo com centenas de milhões de pessoas empregadas em metaversos. Parece exagerado? Bem, e é. Mas pense em quantas promessas do mercado crypto já pareceram exageradas antes, e hoje se tornaram lugar comum. E pense em quanto capital segue demandando maiores retornos, bem como pessoas em busca de melhores oportunidades de obter renda ao redor do mundo.

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